Tem dia que faz sol; no outro amanhece chovendo. Um dia o mar está de ressaca, depois vira calmaria. Tem dia que a gente não pega nem baiacu, enquanto o companheiro de pescaria, ao lado, enxe o isopor com peixe "top de linha". E nem adianta trocar o anzol, mudar a isca, seguir as dicas do melhor pescador profissional. Definitivamente, naquele dia, você volta para casa de mãos vazias, mesmo que tenha feito tudo certo. Porque o mar (e os peixes) têm lá os seus caprichos.
E quando a vida decide imitar os peixes e o mar? Foi o pensamento que me ocorreu enquanto eu observava, no último final de semana, um veterano pescador, na Praia de Icaraí, em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Seu Fernando, aos quase de 70 anos de idade, acabara de pegar um robusto baiacu-arara, com quase 30 centímetros de comprimento, que foi imediatamente limpo e colocado junto com outras espécies dentro da caixa de isopor.
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| Baiacu-arara |
A diversão não é o peixe - Mas, até o peixão morder o anzol do pescador, sei lá quantos minutos tinham se passado. Sem contar o trabalho anterior parar preparar o molinete: descascar o camarão, espetar e amarrar com linha de nylon essa isca no anzol (para evitar que se solte na hora do arremesso), conferir a tensão da linha. Tudo feito com calma e muito critério, como quem estivesse "saboreando o momento". E ainda ficar observando o molinete cravado na areia, sem sucumbir à tentação de tocar no equipamento a cada 30 segundos para conferir se algum peixe tinha caído na armadilha.
- Dá para saber quando algum é fisgado pelos movimentos da vara de pesca. Não é preciso ficar rodando o molinete toda hora. A pressa aqui não adianta nada. Nem a euforia. Porque, dependendo do dia, a gente não pega um peixinho sequer, mesmo que tenha usado a melhor isca do mundo, mesmo que tenha feito tudo certo. Então, a grande recompensa não pode ser o peixe, mas a pescaria - filosofou Fernando, que pratica o hobby desde os 5 anos de idade.
"Navegar" a vida - "Será que consigo aplicar essa filosofia?" - pensei, enquanto continuava a conversar com o pescador de fim de semana. "Navegar" a vida, sem tentar ir contra a maré? Esperar o vento mudar e remar a favor? Brincar com (e como) as crianças de fazer castelos de areia e deixar a felicidade chegar até a beira da praia, naturalmente? Por que não!? Seu Fernando acaba de me mostrar que a vida pode ser vivida como uma prazeirosa pescaria.
